História de Mesão Frio

10 de Fevereiro de 2010

Conta a história que Mesão Frio terá nascido no local que muito mais tarde envolveria a Igreja de S. Nicolau, mandada construir, segundo se diz, pela rainha D. Mafalda, mulher de D. Afonso Henriques.

Com certeza, apenas se sabe que o germe desta terra foi uma daquelas albergarias (mansiones) existentes nas principais vias do Império Romano destinadas inicialmente a agasalhar os viandantes nos seus itinerários, a estabular os animais e a servir de estação de muda de cavalos, daí que, a data de nascimento deste povoado se possa atribuir aproximadamente ao início do século III.

O actual nome desta vila provém, assim, de uma longa evolução linguística, semântica e gráfica da “mansionis frigidae”.

A primeira vez que aparece este lugar grafado de “mansion frigido” resultante da adulteração dos vocábulos femininos “mansione frígida”, foi em 1059 no “Inventario de omnes hereditates sive et ecclesia de Vimaranes”, do monarca leones Fernando Magno, isto é, 120 anos antes de D. Afonso Henriques haver sido reconhecido como rei.

Ao longo dos séculos, este termo toponímico sofreu diversas variações na grafia do seu vocábulo, descrita em vários documentos, que são inevitavelmente a consequência lógica da evolução da língua portuguesa. O comodismo ou aglutinação do linguajar do povo conduziu a uma evolução progressiva, até ao seu nome actual: Meijon Frio, Meijó Frio, Mey Johan Frio, Meyon Frio, Meyão Frio, Mezam Frio… e Mesão Frio.

Este termo toponímico é comum a outras terras portuguesas, todavia, entre todas estas localidades homónimas, o Mesão Frio “duriense” é, sem dúvida, o mais importante.

O desenrolar do tempo e a consequente atracção da circunvizinhança definiram os contornos do primitivo concelho de Mesão Frio, cuja vivência se situa, por isso, muitos séculos antes da outorga do primeiro foral em Fevereiro de 1152 por D. Afonso Henriques e que viria a ser confirmado por D. Afonso II, em Trancoso, no dia 15 de Outubro de 1217. Três dias antes do dia de Santo André do ano de 1513, o rei D. Manuel I concedeu-lhe “foral novo” (peça disponível no Arquivo Histórico da Câmara Municipal).

Antigamente era excêntrico pretender-se nobilitar as terras, atribuindo-lhes como fundador alguém com nome semelhante ao delas. Mesão Frio, não escapando a esta extravagância, tomou em tempos idos para seu fundador um tal “Esteves Gracia Monzon Friwn” que, no ano de 942, reinando Ramiro II em Leão, teria entrado pela foz do Douro com outros cavaleiros franceses aventureiros que foram pegando os seus nomes às terras em que foram ficando. Esta é, pois, a origem lendária criada pelo imaginário de quem não se deu ao trabalho de escavar as verdadeiras raízes de Mesão Frio, quiçá levado por um túmulo em pedra que, juntamente com outros seis, então existia no muro do adro da igreja de São Nicolau, monumento funerário este que, por ter esculpidas as armas da cavalaria francesa, induziria a fundação desta terra à custa duma fase histórica dominada pela vinda de numerosos cavaleiros franceses movidos pela façanha da Reconquista (718-1492).

Conta a história antiga que este lugar foi povoado pelos pedreiros que fizeram a ponte Henriques mandada construir em Barqueiros pela rainha D. Mafalda que, pelo que se vê, muito quis a estes sítios (para esta construção o marido deixou no testamento 3000 maravedis, dela restando apenas um pedregulho e, submersos no rio Douro, dois pilares, facto que deu o nome de Pilar ao local onde se encontram por corruptela de pilar).

Local onde estão mergulhadas as ruínas da antiga ponte

Diz ainda que tinha um rego pelo meio da rua, de fundo a cima, dividindo a povoação em dois concelhos, cada um com o seu mestre de pedreiros, juiz e oficiais (este rego ainda existe e esteve à vista até 1948, tendo tido por ele o seu curso “a água de rega dos Ameais” que foi motivo de grandes brigas com Vila Marim no tempo do rei D. Sancho I).

A ter sido exactamente assim, ou se esteve perante o repovoamento deste lugar por aqui se ter dado o despovoamento entre os séculos VIII e IX ou, então, a dar créditos aos medievalistas que se opõem à teoria do ermamento total do território devido às vicissitudes das guerras e alternativas de domínio, deu-se apenas, e mais uma vez, um albergamento, embora desta feita com características muito peculiares. O primeiro povoamento fez-se, com efeito, à volta da “mansionis frigidae”, albergaria que foi privilegiada com o estatuto de “bemfeitoria” ou “beetria” (corruptela de “bemfeitoria”), vindo a ser “vila”.

Segundo alguns historiadores da antiguidade, além de Mesão Frio, só mais 9 povoações foram “beetrias”, o que lhes permitia eleger um senhor, exercer o domínio das suas terras e pagar tão só uma renda ou censo.

Mesão Frio, no reinado de D. Manuel I, já contava com as povoações de Cidadelhe e Vila Marim como fazendo parte do seu concelho que inicialmente apenas teria compreendido o território das actuais freguesias de Santa Cristina e de São Nicolau, bem como a parcela de Vila Jusã que integra a vila e que antigamente era chamada de “Meigõ frio de jusão”, situada a par do “Meigõ frio de susão” (só a partir dos meados de 1916 foi criada a unidade administrativa com o nome de “freguesia” em substituição da unidade eclesiástica denominada “paróquia”).

As povoações de Barqueiros, Oliveira e Vila Jusã só mais tarde seriam aglutinadas a Mesão Frio. De facto, Barqueiros, até então concelho, e os povos de Oliveira e Vila Jusã, pertencentes ao concelho de Santa Marta de Penaguião, juntaram-se-lhe por força do decreto de 6 de Novembro de 1836, que também integrou no território mesão-friense o antigo concelho da Teixeira e as freguesias de Frende, Loivos da Ribeira e Teixeiró, do concelho de Baião. A aglutinação destas quatro circunscrições foi, porém, passageira, pois logo passariam para a jurisdição daquele concelho pela carta de lei de 27 de Setembro de 1837 por motivo de uma pendência de águas ocorrida em meados de 1835 entre Mesão Frio e o concelho da Teixeira, o que viria a gerar um certo irredentismo e uma situação paradigmática duma incongruente divisão administrativa do País que ainda persiste.

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